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Transtorno de acumulação: o que é, como tratar?

Pessoas com transtorno de acumulação tendem a acumular objetos sem nenhuma razão aparente. Até mesmo objetos de baixo valor ou vistos como inúteis podem se tornar objetos valiosos para quem tem este transtorno.

Essas pessoas podem apresentar uma dificuldade imensa em se livrar de seus pertences, mesmo aqueles que não funcionam mais ou estão quebrados, e podem chegar a uma acumulação tão extrema que suas casas ficam abarrotadas de objetos, chegando até mesmo a faltar espaço nos cômodos.

O transtorno se faz presente em cerca de 2 a 6% da população, sendo mais comum em homens do que em mulheres. Também é mais comum conforme o avanço da idade, sendo três vezes mais comum em adultos entre 55 e 94 anos do que em adultos entre 34 e 44 anos de idade.

Frequentemente, a pessoa não percebe seu hábito de acumulação como um problema, especialmente se os objetos acumulados trazem uma sensação boa de alegria ou segurança.

No entanto, a acumulação pode causar sérios prejuízos na vida do indivíduo que sofre deste transtorno. Isso porque o local onde a pessoa mora pode ficar muito cheio de objetos, faltando lugar para organizá-los adequadamente, e isso pode resultar em uma higienização inadequada do ambiente, o que expõe a pessoa a uma série de perigos por condições insalubres.

Além disso, a quantidade de objetos pode afetar a locomoção dentro de casa, o que pode causar prejuízos como dificuldades para sair de casa e chegar aos compromissos no horário certo, além de influenciar na vida social, por não poder receber visitas, por exemplo.

Dependendo do caso, a pessoa pode acumular objetos que são extremamente perigosos, como objetos perfurantes e cortantes, objetos inflamáveis, entre outros. Nestes casos, as chances de um acidente terminar em uma emergência médica aumentam consideravelmente.

A pessoa que sofre de transtorno de acumulação também frequentemente acaba morando sozinha, pois as pessoas que moram com ela tendem a se mudar para não ter que lidar com todos os objetos acumulados. Porém, antes disso acontecer, podem ocorrer inúmeras brigas, conflitos e separações.

Acumulação versus coleção

A acumulação é um fenômeno completamente diferente da coleção, pois ela ocorre de forma indiscriminada.

O colecionador busca fazer uma coleção das variantes de um determinado tipo de objeto, além de organizá-los de forma específica e dispô-los para que as outras pessoas os observem. Em geral, o colecionador tem orgulho da sua coleção e tem critérios rígidos em relação aos objetos que nela entram.

Já a pessoa que sofre de transtorno de acumulação pode pegar coisas indiscriminadamente, ou seja, qualquer coisa que chame sua atenção é um potencial candidato a ser levado para casa.

Com isso, acumuladores podem pegar da rua objetos perdidos ou até mesmo quebrados, e muitas vezes acreditam que tais objetos poderão ser úteis algum dia, basta apenas consertá-los, por exemplo.

Porém, o dia em que os objetos são úteis nunca chega, e nem mesmo o dia em que os objetos quebrados são consertados. Eles ficam apenas guardados, acumulando poeira. Isso quando ainda há espaço para guardar, pois o acumulador pode encher cômodos inteiros de objetos “inúteis”.

Muitas vezes, a pessoa que sofre de transtorno de acumulação não tem coragem de receber visitas ou mostrar seus objetos acumulados, pois tem noção de que esse nível de acumulação não é socialmente aceitável.

Contudo, muitas pessoas que sofrem do transtorno não percebem que há um problema em sua acumulação, e acabam tendo problemas interpessoais por conta disso.

Sintomas e diagnóstico

O diagnóstico de transtorno de acumulação é feito mediante a presença dos seguintes sintomas:

  • Dificuldade duradoura em jogar fora ou doar suas posses, mesmo que sejam objetos quebrados ou que já não servem mais seu propósito;
  • Sentimentos de angústia ao livrar-se dos objetos ou sensação de que é necessário guardá-los pois serão necessários mais tarde;
  • Comprar itens ou pegar itens disponíveis gratuitamente mesmo sabendo que não há espaço para eles em casa;
  • Os objetos acumulados são tantos que não há onde guardá-los, desta forma eles podem bloquear bancadas e superfícies, passagens da casa ou cômodos inteiros, que ficam inutilizáveis pela quantidade de objetos presentes no ambiente.

Em geral, os sintomas começam já na adolescência e, se não tratado, o transtorno de acumulação tende a piorar com o tempo. Os sintomas vão ficando cada vez mais severos ao longo das décadas, e neste tempo a pessoa continua aumentando seu acúmulo de objetos “inúteis”, gradualmente causando mais e mais prejuízos em sua vida.

Acumulação de animais

Embora o transtorno de acumulação esteja relacionado a objetos, existem também pessoas que acumulam animais. São pessoas que mantém dezenas ou até mesmo centenas de animais em ambientes inadequados, sem a intenção de ser apenas um lar temporário para animais resgatados.

Isso pode ser perigoso tanto para a saúde dos animais, que vivem em ambientes inadequados onde sofrem com diversos estressores e podem sofrer com falta de alimentos, água e outros recursos, como também pode ser perigoso para a pessoa que os mantém, tendo em vista que os animais podem encher o ambiente de dejetos que, se não forem limpos frequente e adequadamente, podem trazer riscos à saúde.

Causas e fatores de risco

Não existem causas bem estabelecidas para o transtorno de acumulação, mas alguns fatores de risco  identificados são:

  • Histórico familiar de transtorno de acumulação;
  • Eventos estressantes como a perda de um ente querido está associado ao início de comportamentos de acumulação;
  • Anormalidades no funcionamento neuropsicológico;
  • Lesões cerebrais.

O transtorno de acumulação é mais frequente em pessoas que negligenciam suas próprias necessidades. Também é bem comum que o transtorno ocorra em pessoas que moram sozinhas ou que não são casadas.

Contudo, vale lembrar que o transtorno em si pode causar brigas e separações, portanto, não necessariamente o transtorno surge da solidão, mas a solidão pode surgir a partir do transtorno.

Tratamento

Os principais métodos de tratamento do transtorno de acumulação são a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e o uso de medicação psiquiátrica.

Grande parte das pessoas com transtorno de acumulação sofrem também de algumas comorbidades, como o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno depressivo, transtornos de ansiedade, transtorno de deficit de atenção e hiperatividade, esquizofrenia, entre outros.

Sendo assim, o uso de medicamentos antidepressivos pode auxiliar a controlar os sintomas, podendo ter algum efeito no controle da acumulação também. No entanto, a psicoterapia tende a trazer maiores resultados a longo prazo.

Isso porque a terapia cognitivo-comportamental trabalha com a percepção que a pessoa tem do mundo, auxiliando-a a lidar com crenças disfuncionais e distorções cognitivas.

Acredita-se que a necessidade de guardar tantos objetos e a dificuldade em se desfazer deles está relacionada a uma visão de mundo distorcida, na qual a pessoa sente que precisa guardar tudo para um eventual uso — e isso tudo pode ocorrer de forma não consciente, e a pessoa pode nem perceber que pensa dessa forma.

A TCC tem como objetivo a reestruturação cognitiva, combatendo essas percepções distorcidas do mundo, bem como auxiliando a romper com a percepção de necessidade dos objetos acumulados, ajudando o paciente não apenas a parar de acumular, mas a livrar-se daquilo que já está o atrapalhando e organizar aquilo que tem valor e deve ficar.

É importante ressaltar que uma abordagem radical do tipo “jogar tudo fora” não resolve o problema, pois a pessoa precisa aprender a lidar com os pensamentos e sentimentos de angústia que surgem quando precisam se desfazer de algo. Jogar as coisas fora apenas abre mais espaço para que a pessoa comece uma nova acumulação.

O transtorno de acumulação pode trazer prejuízos bastante graves à vida de uma pessoa, e esperar muito tempo para tratar pode dificultar as coisas. Se você percebe que costuma pegar objetos “inúteis” mas sente que serão úteis e sente muita angústia em pensar em se livrar deles, não hesite em procurar um profissional da saúde mental!

Referências

https://www.psychiatry.org/patients-families/hoarding-disorder/what-is-hoarding-disorder

https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/hoarding-disorder/symptoms-causes/syc-20356056

https://www.nhs.uk/mental-health/conditions/hoarding-disorder/



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