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Ansiedade e transtorno de espectro autista: comorbidade pode passar despercebida

O transtorno de espectro autista (TEA) é caracterizado por dificuldades sociais e na comunicação, bem como padrões de comportamentos repetitivos, hipo ou hipersensibilidade a estímulos, dificuldade em reconhecer as emoções em outras pessoas, entre outros.

Embora a ansiedade não seja um sintoma tido como “clássico” no TEA,  sua prevalência entre as pessoas dentro do espectro é significativa, ou seja, muitas pessoas com transtorno do espectro autista também apresentam algum grau de ansiedade elevada.

Entre as pessoas dentro do espectro autista, a prevalência de transtorno de ansiedade generalizada (TAG) é significativamente maior do que em pessoas sem o diagnóstico de TEA. Enquanto em pessoas neurotípicas a prevalência de TAG é de 8,7%, em pessoas com transtorno de espectro autista esse número chega a 20%.

Contudo, essa ansiedade nem sempre é fácil de diagnosticar em pessoas no espectro autista. Isso ocorre por vários motivos, sendo o principal a dificuldade de comunicação, que varia de não conseguir desenvolver a fala até conseguir falar, mas ainda ter dificuldade em nomear e expressar seus sentimentos.

Como identificar a ansiedade no TEA?

Em geral, é mais fácil perceber a ansiedade em uma pessoa com TEA pelos sintomas físicos que surgem em crises de ansiedade do que pelos sintomas psicológicos.

Contudo, em alguns casos, mesmo assim pode ser difícil, como é o caso de pessoas no espectro que apresentam como comorbidade o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Transtorno de espectro autista e TOC

As pessoas dentro do espectro frequentemente apresentam comportamentos repetitivos, rituais, necessidade de organizar coisas, sintomas que são comuns também no TOC.

No entanto, no transtorno do espectro autista, esses sintomas não estão relacionados a uma angústia ou ansiedade, mas sim a uma tentativa de autorregulação que não necessariamente significa que o indivíduo está sofrendo de alguma forma.

Já no TOC, a realização destes movimentos repetitivos e rituais está relacionado a presença de obsessões, pensamentos intrusivos que causam uma grande angústia que só é aliviada pela realização destes rituais.

Ansiedade social

O TEA pode ser facilmente confundido com ansiedade social em casos mais leves nos quais a pessoa consegue ser bastante funcional, mas ainda tem dificuldades em situações sociais (antigamente conhecido como síndrome de Asperger). Contudo, os dois transtornos são bem diferentes.

A pessoa dentro do espectro apresenta características bem específicas que a diferenciam de uma ansiedade social, como os padrões de comportamentos restritos, a dificuldade em ler e compreender as emoções por meio de expressões faciais, entre outros.

A pessoa com ansiedade social teme situações sociais pois tem medo do julgamento, medo de possíveis humilhações, sente vergonha quando há mais pessoas por perto, entre outros. Enquanto isso, as pessoas com TEA têm dificuldade em entender o que está nas entrelinhas, podem ter dificuldade em entender gestos, tons de voz, expressões faciais, também podem falar de maneira que parece rude ou insensível para pessoas neurotípicas, entre outros.

São manifestações bem diferentes de dificuldades com situações sociais. No entanto, é possível desenvolver uma ansiedade social por conta das dificuldades sociais do espectro autista. Quando a pessoa tem noção das suas limitações e como, por conta delas, ela pode ser julgada ou humilhada, a ansiedade social pode surgir como resposta a isso.

Fobias específicas

As fobias específicas, descritas como o medo intenso e irracional de alguma coisa que pode ser pouco perigosa ou não apresentar perigo algum, são bastante comuns durante a infância, até mesmo em indivíduos neurotípicos.

Contudo, pessoas dentro do espectro podem levar essas fobias até a vida adulta, e os objetos fóbicos podem ser “incomuns”. Isso pode ocorrer por conta da hipersensibilidade que alguns dos indivíduos com TEA apresentam.

Um exemplo de objeto fóbico incomum é o medo de estouro de bexigas ou de fogos de artifício. São coisas comumente temidas na infância mas, na idade adulta, pessoas neurotípicas geralmente não sentem mais ansiedade relacionada a essas coisas.

Já para pessoas dentro do espectro, por conta da hipersensibilidade a estímulos, a possibilidade de sentir uma grande angústia diante destes estímulos pode gerar a ansiedade fóbica.

Transtorno de ansiedade generalizada (TAG)

O TAG é caracterizado por sentimentos de ansiedade inespecíficos, sem ter uma causa óbvia. É como se todo e qualquer acontecimento fosse o bastante para fazer com que a pessoa se sentisse ansiosa.

Pesquisas mostram que, em adultos com transtorno de espectro autista, surgem muitos pensamentos confusos e preocupações com bastante frequência, aumentando os níveis de ansiedade.

Essa ansiedade se torna ainda maior diante de eventos inesperados e fora do controle da pessoa, como um atraso de um ônibus ou até mesmo um encontro com um conhecido na rua.

Além disso, esses sentimentos de ansiedade costumam ser duradouros, passando de 10 minutos de duração mesmo após o evento desencadeante da ansiedade ter acabado.

Síndrome de Asperger versus ansiedade

Antes do lançamento da 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o transtorno de espectro autista era dividido em vários diagnósticos, dentre eles a Síndrome de Asperger.

Este diagnóstico seria um tipo de autismo mais “leve”, no qual a pessoa seria de “alto funcionamento”, ou seja, seus desafios no dia-a-dia seriam mais amenos do que aqueles afetados pelo autismo grave. Contudo, neste diagnóstico, ainda haveria uma dificuldade significativa nas comunicação e no estabelecimento de relações interpessoais, o que frequentemente pode ser confundido com ansiedade social ou ansiedade generalizada.

Não raramente, pessoas com este diagnóstico eram erroneamente diagnosticadas como pessoas com ansiedade apenas, e os outros sintomas do TEA eram deixados de lado.

O problema é que, nestes casos, o tratamento apenas dos sintomas ansiosos não elimina as outras dificuldades que o indivíduo pode enfrentar no dia-a-dia, levando-o a questionar sua capacidade, seu tratamento e até mesmo provocando desistências.

Felizmente, à medida que o acesso à informação se torna mais fácil, é possível evitar estes diagnósticos errôneos ou incompletos, desde que ambos (paciente e médico) estejam bem informados acerca dos sintomas apresentados.

Como tratar a ansiedade em pessoas dentro do espectro?

Tendo em vista que o diagnóstico de um transtorno de ansiedade é um diagnóstico a parte do diagnóstico do espectro autista, o tratamento para ansiedade em pessoas dentro do espectro não é muito diferente do tratamento em pessoas neurotípicas.

Quando necessário, são usados medicamentos antidepressivos e ansiolíticos, além da terapia cognitivo-comportamental, uma abordagem psicoterápica com bastante eficácia para casos de ansiedade.

Estudos feitos mostram que não há diferenças significativas na eficácia do tratamento para ansiedade em pessoas no espectro autista. Contudo, é preciso atenção na hora da indicação de alguma medicação: pessoas dentro do espectro frequentemente apresentam uma sensibilidade maior às doses de medicamentos e, por isso, podem sofrer com mais efeitos colaterais ou efeitos colaterais mais intensos.

Psicoterapia

O tratamento da ansiedade feito apenas com medicamentos nem sempre é totalmente eficaz, e frequentemente é necessário o acompanhamento psicoterápico. Quando essa ansiedade está associada a comorbidades, como o TEA, a psicoterapia tem um papel ainda mais importante no tratamento.

No que tange a psicoterapia, existem alguns pontos importantes a serem trabalhados, como aprender a diferenciar a ansiedade natural da ansiedade patológica e prejudicial, identificar e modificar os pensamentos ansiosos, entre outros.

A terapia cognitivo-comportamental leva um destaque em relação a outras abordagens da psicologia, tendo em vista que é a abordagem com o maior respaldo científico e que consegue produzir resultados positivos em tempo mais ágil do que as outras.

No que tange transtornos ansiosos específicos, como a fobia social ou as fobias específicas, o tratamento pode ser um pouco diferente. No primeiro caso, pode-se trabalhar habilidades sociais, habilidades de reciprocidade, entre outras. Já no segundo caso, pode-se trabalhar com a exposição gradual aos estímulos fóbicos, a fim de diminuir a capacidade ansiogênica destes estímulos.


Apesar de não ser comumente associada ao autismo, a ansiedade em pessoas no espectro autista é uma realidade que não pode ser ignorada. Se você conhece alguém no espectro ou já foi diagnosticado e sente que está apresentando também sintomas ansiosos, não hesite em contatar um profissional da saúde mental!

Referências

https://www.additudemag.com/autism-anxiety-adults/

https://www.verywellmind.com/how-is-aspergers-related-to-social-anxiety-disorder-3024753

https://www.spectrumnews.org/opinion/adults-with-autism-feel-frequent-lingering-anxiety/



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