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Como os genes influenciam nos transtornos mentais?

Muitas pessoas querem entender quais são as causas dos transtornos mentais. Infelizmente, esta é uma pergunta que está longe de ter uma resposta definitiva. Alguns transtornos mentais têm componentes genéticos envolvidos, mas não existe um único gene responsável pelos transtornos, tornando a questão ainda mais complicada de se resolver.

Portar genes relacionados a transtornos mentais não significa necessariamente que a pessoa irá manifestar algum transtorno. Isso porque os transtornos não dependem apenas da genética para se desenvolverem. Na realidade, é a interação expressão genica-ambiente, conhecida como “fenótipo”, que resulta no que nós somos e na expressão dos transtornos mentais.

Antes de explicar como funciona a interação entre gene e ambiente, é necessário compreender um pouco sobre como funcionam os genes.

O que são genes?

Os genes são pequenas porções de uma molécula de DNA com sequências específicas que determinam as características do organismo. Em suma, um gene contém um código específico que produz as proteínas necessárias para que uma determinada célula desempenhe sua função.

Todas as células do corpo possuem o mesmo genoma, que contém os nossos genes. Contudo, nem todas as células do corpo são iguais. Isso ocorre porque as células usam os genes de forma seletiva, ou seja, uma célula epitelial (da pele) vai expressar apenas os genes referentes à pele, e deixar o resto dos genes contidos nela “inativos”.

O mesmo ocorre com todos os órgãos do nosso corpo: as células dos músculos também contém os genes que são usados para definir a cor dos nossos olhos, no entanto, como esses genes não são relevantes para a formação do músculo, eles não são expressos nas células musculares.

O DNA funciona como um fio, que está emaranhado em diferentes graus ao longo do comprimento. Quanto mais emaranhado, menos acessíveis os genes estarão para serem expressos. Por exemplo, em células da pele, os genes para formação de músculo estão mais emaranhados do que os genes para a formação da pele.

Dessa forma, é controlado se a célula vai ou não expressar o gene.

Como funciona a interação gene-ambiente?

Às vezes, certos acontecimentos podem desencadear uma expressão destes genes nas células, fazendo com que eles se manifestem. Fatores ambientais podem alterar o emaranhamento da fita de DNA, expondo os genes que estavam “escondidos” antes, incluindo os que levam ao desenvolvimento de transtornos. Contudo, isso só ocorre em pessoas com predisposição a essas doenças, ou seja, pessoas que possuem tais genes.

No que tange os transtornos mentais, alguns genes levam a uma predisposição a transtornos que influenciam o humor, o comportamento, entre outros. Isso não quer dizer que são os genes que causam os transtornos mentais, mas sim que pessoas com tais genes têm mais chances de desenvolver os transtornos.

Entre os transtornos, a influência genética é variável. Enquanto o autismo tem uma influência genética total, a esquizofrenia tem alta influência, enquanto a depressão e ansiedade podem ser expressas até em pessoas que não possuem predisposição genética.

É importante ressaltar que não se pode culpar um gene específico pelo aparecimento dos transtornos. Não é como se houvesse um gene específico para a depressão, outro para ansiedade, outro para esquizofrenia… Na realidade, pesquisadores acreditam que nenhum transtorno mental é mono-gênico, ou seja, nenhum deles é “causado” por apenas um gene, mas sim pela combinação e interação de vários genes.

Vários genes diferentes, inclusive, podem ter expressões muito parecidas. É sabido, por exemplo, que existem vários genes relacionados às manifestações do autismo, ou seja, nem todas as pessoas com autismo possuem os mesmos genes. Em outras palavras, uma combinação de genes pode desencadear o autismo em uma pessoa, enquanto em outra o transtorno é desencadeado por outra combinação de genes.

Contudo, apenas a existência dos genes não é o suficiente para que o transtorno se manifeste. Para isso, é necessário uma grande influência de fatores externos, como exposição a estresse, exposição a certos compostos químicos, exposição a drogas de abuso, entre outros.

Grande parte dos transtornos mentais tem como fator de risco um histórico de traumas, estresse (agudo ou prolongado), ou até mesmo a criação recebida na infância, indicando que estes eventos podem contribuir para a expressão dos genes que geram maior vulnerabilidade aos transtornos em questão.

Quanto ao uso de substâncias, estudos apontam que o uso de maconha (Cannabis sativa) é um grande contribuinte para o desenvolvimento da esquizofrenia em jovens com predisposição genética. Sugere-se a possibilidade de que a exposição à maconha faça com que os genes da esquizofrenia, antes mais emaranhados, se exponham e passem a ser expressos.

Vale ressaltar que estes estudos falam de pessoas jovens, evidenciando que a maconha é especialmente prejudicial para adolescentes e jovens adultos com predisposição.

O que isso quer dizer?

Compreender a interação entre gene e ambiente nos transtornos mentais pode dar uma ideia de como os transtornos surgem. A identificação dos genes também pode auxiliar na busca por tratamentos mais eficazes.

Contudo, até hoje, ainda existem pesquisas que buscam conhecer mais os genes que estão relacionados a cada transtorno mental. Existem também pesquisas acerca de terapias que podem minimizar a exposição da pessoa a fatores ambientais que promovem a expressão destes genes.

Se você tem familiares diagnosticados com algum transtorno mental e acredita estar apresentando sintomas, não se esqueça de entrar em contato com um psiquiatra de confiança!

Referências

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4382963/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7442038/

https://www.nimh.nih.gov/about/advisory-boards-and-groups/namhc/reports/genetics-and-mental-disorders-report-of-the-national-institute-of-mental-healths-genetics-workgroup.shtml



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