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Cirurgia cerebral para tratar vício em drogas: é possível?

A dependência química é uma doença crônica que pode causar inúmeros prejuízos às pessoas afetadas por ela. Desde problemas financeiros e com a lei, no caso de substâncias ilícitas, até problemas de saúde sérios por conta do uso abusivo, não resta dúvidas de que se trata de um problema de saúde extremamente complexo e que precisa ser tratado.

Uma das formas de tratamento mais incentivadas atualmente é a abstinência total, o que seria o ideal, mas nem sempre isso é alcançável. Levando em consideração que a adicção é uma doença que acomete as esferas fisiológica e psicológica, mesmo quando a pessoa consegue se manter em abstinência durante muitos meses ou até mesmo anos, não é raro que a pessoa tenha recaídas e precise reiniciar o tratamento.

Felizmente, existem inúmeras pesquisas sendo realizadas para encontrar soluções para este problema. É o caso do uso experimental da cirurgia para implementação de um aparelho de deep brain stimulation (DBS), ou “estimulação cerebral profunda” em tradução livre, feito pelo Instituto de Neurociência Rockefeller, da West Virginia University, nos Estados Unidos.

O que é deep brain stimulation (DBS)?

A deep brain stimulation (DBS) é uma técnica de neuromodulação, ou seja, uma técnica que visa ajudar a equilibrar o fluxo das sinapses e dos neurotransmissores no cérebro.

Ela é feita por meio do implante de pequenos eletrodos em áreas específicas do cérebro. Estes eletrodos são conectados a um aparelho que envia disparos elétricos que ajudam a estimular e modular as sinapses na região. É como se fosse um marca-passo para o cérebro.

Atualmente, a DBS é utilizada para o tratamento de mal de Parkinson, e também mostra eficácia significativa em pessoas acometidas por episódios depressivos que não respondem ao tratamento farmacológico, bem como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e epilepsia.

Como a DBS pode ajudar em casos de dependência química?

Na teoria, a utilização da técnica poderia diminuir os sintomas de abstinência como a chamada “fissura” — um desejo incontrolável de consumir a substância — por estimular o aumento da liberação de dopamina, um neurotransmissor altamente influente nos casos de dependência química.

Ela também auxiliaria a controlar a impulsividade e ajudaria a melhorar o processo de tomada de decisão, que frequentemente se encontra prejudicado em pessoas que sofrem de dependência química. Por fim, a técnica poderia ajudar a reverter os danos cerebrais causados por anos de uso de substâncias.

Tudo isso, é claro, na teoria. Ainda não se sabe exatamente de que forma a técnica pode funcionar, mas estima-se que estas seriam as razões.

O que se sabe é que a DBS não acaba com a adicção em si e a pessoa continua tendo abstinência e demais sintomas. No entanto, a técnica ajuda a controlar a ansiedade demasiada que acaba fazendo com que a pessoa tenha recaídas, dando mais tempo para a pessoa procurar ajuda ao invés de usar a droga.

Por fim, a DBS também ajuda os outros tratamentos a fazerem efeito; mesmo tratamentos que antes não funcionavam podem auxiliar melhor o paciente depois da cirurgia.

A história de Gerod Buckhalter

O americano Gerod Buckhalter já lidava com a adicção há duas décadas quando foi oferecida a possibilidade de realizar a cirurgia em caráter experimental pelo Instituto de Neurociência Rockefeller.

Por conta de sua dependência química, Buckhalter já havia passado por maus bocados, como problemas financeiros, morar na rua, perda de amigos, entre outros, e escolheu dar uma chance a esse tratamento que ainda tinha resultados imprevisíveis.

Atualmente, Buckhalter está sóbrio há mais de 600 dias.

Não se trata de uma cura milagrosa e nem se sabe, ainda, se este tipo de tratamento poderá ser aplicado em larga escala — embora estima-se que isso não seja possível.

Buckhalter ainda precisa fazer o uso de medicações para combater o vício, bem como participar de reuniões de narcóticos anônimos e fazer acompanhamento terapêutico.

Ele ainda lida com crises de abstinência, ansiedade e todas essas questões que frequentemente levam a recaídas. Contudo, desde a cirurgia, Buckhalter finalmente conseguiu lidar com tudo isso de forma a não fazer o uso de substâncias novamente.

Enquanto todos os outros tipos de tratamento falharam, este finalmente o ajudou a lidar com os sintomas que o levavam a voltar para as drogas. Atualmente, ele é a única pessoa que passou por este procedimento e teve bons resultados.

Ainda não se sabe se será possível realizar um experimento em larga escala, ou se estes resultados podem ser generalizados — mas, mesmo assim, ao menos uma vida foi salva graças a este tratamento.

DBS versus lobotomia: quais as diferenças?

Quando se fala em “cirurgia cerebral”, muitas pessoas pensam na famigerada lobotomia, uma intervenção cirúrgica que consiste no corte das vias de comunicação de algumas partes do cérebro.

Trata-se de uma cirurgia bem arriscada e que pode trazer uma série de efeitos colaterais indesejados, tendo em vista que é uma técnica pouco específica.

Contudo, atualmente, existe muito mais conhecimento em relação ao cérebro e seu funcionamento e, portanto, vários transtornos podem ser tratados de formas bem menos arriscadas do que a lobotomia.

A DBS é um exemplo de uma intervenção bem mais específica, pois consiste apenas na implementação de dois eletrodos em uma parte específica do cérebro, com o intuito de estimular uma região chamada núcleo accumbens.

Esta região está relacionada ao mecanismo de recompensa, bem como à impulsividade, e é justamente aí que a dependência química causa alterações no funcionamento cerebral.

Portanto, ao utilizar esta técnica mais específica, é possível chegar mais perto da “raíz” do problema e aliviar os sintomas.

Dependência química: doença crônica ou falha moral?

Ainda hoje em dia, há quem acredite que a dependência química é uma falha moral. A grande associação entre a doença e drogas de abuso ilícitas usadas em contextos como festas e baladas faz com que muitas pessoas pensem que “está na droga porque quer”. Contudo, isso nem sempre é verdade.

Não se pode negar o impacto negativos que o uso abusivo de substâncias traz na vida de uma pessoa, e nem que muitas vezes a pessoa é exposta a essas substâncias em ambientes recreativos e de lazer. Contudo, também não se pode negar que a dependência surge como uma doença crônica que pode acometer qualquer um, independente do caráter.

Existem vários casos de pessoas que desenvolvem dependência a medicamentos legalizados e frequentemente indicados por médicos, como é o caso dos benzodiazepínicos, por exemplo.

Um medicamento usado para tratar ansiedade e frequentemente receitado para ajudar pacientes a pegar no sono no caso de insônia pode se tornar um verdadeiro pesadelo.

Medicamentos para dores baseados em opióides também são uma “porta de entrada” para a dependência química.

Em suma, não são apenas as substâncias ilícitas e recreativas que podem causar este problema. Medicamentos são drogas lícitas com propósitos terapêuticos que, infelizmente, também podem causar o mesmo transtorno.

Desta forma, fica claro que não se trata de uma questão moral, mas sim de uma doença real que pode acometer qualquer um.

Por isso, não se esqueça de nunca se automedicar e sempre seguir as instruções do médico ao tomar um novo medicamento!

Embora seja uma técnica que provavelmente não se tornará um tratamento muito difundido, estudos mostram que a DBS pode sim auxiliar no tratamento de pessoas que sofrem de dependência química e que estão correndo sério risco de vida por conta do vício.

Mais estudos são necessários para determinar a eficácia do procedimento. No entanto, os resultados iniciais mostram que, possivelmente, existem outras soluções para o tratamento de vícios.

Se você conhece alguém que está lidando com um vício ou suspeita que pode estar desenvolvendo uma dependência, não hesite em entrar em contato com um médico de confiança!

Fonte

https://www.washingtonpost.com/health/2021/06/18/deep-brain-stimulation-addiction/



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