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Psicose pós-covid: o que se sabe sobre o problema

Ao redor do mundo, consultórios psiquiátricos estão lidando com os efeitos do coronavírus na saúde mental. Muitas pessoas começaram a procurar ajuda durante a pandemia ao perceberem um aumento na ansiedade, sintomas depressivos ou até mesmo episódios de pânico.

Contudo, surgiram também quadros inesperados, como o de pacientes sem histórico de sintomas psiquiátricos que de repente desenvolveram sintomas psicóticos severos. A coincidência entre estes casos é que essas pessoas teriam sofrido uma infecção pelo coronavírus algumas semanas antes.

Casos como esses já foram relatados nos Estados Unidos e na Espanha, levantando a questão: seria esta psicose mais uma maneira que o coronavírus pode afetar o funcionamento cerebral e a saúde mental?

É importante ressaltar que quadros de psicose comumente se iniciam no início da vida adulta e possuem um componentes genéticos que aumentam a chance do aparecimento do transtorno.

Contudo, nos casos de pessoas que contraíram covid, grande parte dos pacientes que apresentam sintomas psicóticos estão entre 30 e 50 anos de idade, uma faixa etária na qual o surgimento de tais sintomas é incomum, e não possuíam histórico familiar de transtornos mentais.

Como o covid afeta o cérebro?

Inicialmente, acreditava-se que o covid afetava apenas o sistema respiratório. Entretanto, à medida que mais casos foram surgindo, percebeu-se que algumas pessoas apresentam também sintomas neurológicos, como a perda ou alteração do olfato, confusão, encefalite, entre outros.

Em pacientes internados, é comum também quadros de delirium — o que, na realidade, é comum em internações, mas aparentemente o covid aumenta as chances da pessoa apresentar esse quadro. São comuns também casos de fraqueza, problemas na movimentação do olho, convulsões e até mesmo paralisia.

O covid também aumenta as chances de um acidente vascular cerebral (AVC), o que pode ter consequências duradouras, como a perda de movimentos ou de algumas funções cerebrais.

Estima-se que de 30 a 50% dos pacientes internados por covid apresentam sintomas neurológicos além do quadro respiratório, o que indica que o vírus afetar o sistema nervoso central pode ser algo bem mais comum do que se imaginava inicialmente.

Vale lembrar que não existem estatísticas sobre a presença de tais sintomas em quadros mais leves que não necessitam de internação. No entanto, a possibilidade da doença desencadear uma psicose em pessoas que não foram hospitalizadas pode indicar que, mesmo em casos mais leves, de alguma forma o vírus consegue afetar o sistema nervoso central.

Ainda não se sabe exatamente o mecanismo de ação do vírus no cérebro — se ele age diretamente no sistema nervoso central ou se os efeitos da infecção podem interferir indiretamente nas funções cerebrais.

Contudo, uma das hipóteses é que a resposta imune do organismo pode acabar desencadeando problemas no cérebro também. Isso quer dizer que, ao invés de inflamar apenas os órgãos do sistema respiratório, o organismo também sofre inflamações no cérebro, o que pode explicar grande parte dos sintomas neurológicos relatados.

Não se sabe, ainda, se o vírus consegue infectar o cérebro diretamente, mas é uma possibilidade sendo estudada.

Apesar de tudo isso, não se sabe exatamente como o vírus poderia desencadear uma psicose em algumas pessoas. Mesmo a resposta inflamatória que leva à encefalite, comum em casos mais graves, não explica exatamente o surgimento de sintomas psicóticos como os observados nestes pacientes.

Sabe-se, no entanto, que algumas pessoas têm respostas não habituais a infecções em geral. Algumas pessoas apresentam problemas de pele após a infecção por vírus que não afetam a pele, por exemplo, o que pode ser como um “efeito colateral” da resposta imunológica do próprio organismo.

Não se sabe exatamente o porquê isso acontece, mas é possível pensar que os casos de psicose pós-covid podem ocorrer por meio de um mecanismo parecido — ou seja, um efeito colateral da resposta imunológica. Ainda assim, é muito cedo para qualquer resposta definitiva.

Vale lembrar que o aparecimento de sintomas psicóticos após a infecção não é uma característica exclusiva do covid-19, havendo relatos parecidos em infecções por coronavírus SARS (2002) e MERS (2012), bem como a gripe espanhola (1918).

Quais são os sintomas da psicose pós-covid?

Os sintomas da psicose pós-covid não são diferentes dos sintomas de episódios psicóticos comumente observados na clínica. Sintomas como alucinações auditivas, visuais e táteis, bem como delírios, são comuns.

Algumas pessoas relataram ouvir vozes dando ordens para machucar outras pessoas, outras apresentaram percepções deliróides, no qual acreditavam que familiares teriam sido trocados por sósias, por exemplo. Alucinações visuais como ver os familiares machucados ou até mesmo animais também foram relatadas.

A característica que mais diferencia a psicose pós-covid de um quadro psicótico comum é que alguns dos pacientes que tiveram covid conseguem perceber que algo está errado. Em geral, a psicose vem acompanhada de grandes alterações no juízo, fazendo com que a pessoa tenha pouca noção de que algo está diferente.

Ou seja, a pessoa tem alucinações e delírios, mas perde totalmente o contato com a realidade, não percebendo que está apresentando sintomas psicóticos. Já algumas pessoas que tiveram covid conseguem manter o contato com a realidade em algum grau e percebem claramente que estão apresentando sintomas diferentes do seu funcionamento habitual.

Os sintomas da psicose pós-covid costumam ser severos, o que pode levar até mesmo a internamentos, nos quais são testados diversos medicamentos antes de conseguir controlar os sintomas.

A psicose pós-covid pode durar para sempre?

O que se sabe sobre esses quadros de psicose após infecção pelo covid é muito pouco ainda para determinar se é o caso de um quadro temporário ou se pode permanecer para a vida inteira.

Sabe-se, no entanto, que algumas pessoas que contraem o covid apresentam uma série de sintomas a longo prazo, mesmo após a infecção já ter passado. No caso dessas psicoses, os sintomas aparecem meses depois da infecção, dando a entender que se trata de um destes casos a longo prazo.

Mesmo com o tratamento, o tempo de remissão dos sintomas varia bastante entre pacientes. Alguns relatórios mostram números bem variados: um caso que demorou até 40 dias para entrar em remissão, um outro que precisou de internamento por várias semanas e, mesmo após a alta hospitalar, ainda teve problemas por mais dois meses.

Isso não quer dizer, no entanto, que estes pacientes estavam curados. Ainda é preciso mais tempo para investigar se há a necessidade de uma manutenção medicamentosa, ou se eventualmente o problema acaba e a pessoa não precisa continuar o tratamento pelo resto da vida.

Apesar de ser raro, algumas pessoas apresentam sintomas psicóticos após infecção por covid, o que deixa a comunidade psiquiátrica em alerta. Ainda são necessários estudos para entender porquê isso acontece, bem como quais as implicações desses quadros a longo prazo.

Se você sofreu uma infecção por covid e desconfia que esteja tendo sintomas psiquiátricos, não hesite em entrar em contato com um psiquiatra de confiança!

Referências

https://www.apa.org/monitor/features/attacks-brain
https://www.nytimes.com/2020/12/28/health/covid-psychosis-mental.html



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